Não há evidência suficiente para afirmar que bisfosfonatos previnam Alzheimer. Um grande estudo observacional em pessoas com osteoporose ou fratura por fragilidade encontrou menor ocorrência de doença de Alzheimer e demências relacionadas entre usuários de bisfosfonatos nitrogenados. É um sinal científico interessante, mas não prova causa e efeito e não transforma esses medicamentos em tratamento preventivo para demência.
A pauta voltou a circular em 13 de setembro de 2026, mas o estudo original foi publicado em 2025. Essa diferença é importante: estamos diante de uma nova repercussão de um achado já publicado, e não de uma nova recomendação clínica.
O que são bisfosfonatos?
Bisfosfonatos são medicamentos usados no tratamento da osteoporose e de outras condições ósseas específicas. Eles reduzem a reabsorção óssea e podem diminuir risco de fraturas em pacientes adequadamente selecionados.
No Brasil, o tratamento da osteoporose segue critérios clínicos e de risco de fratura definidos em protocolo do Ministério da Saúde. A escolha do medicamento depende de fatores como diagnóstico, histórico de fraturas, função renal, tolerância, possibilidade de uso oral ou venoso e outras características individuais.
Prevenir Alzheimer não é uma indicação estabelecida desses medicamentos.
O que o estudo encontrou?
Pesquisadores de Hong Kong analisaram registros de 121.492 pessoas com 60 anos ou mais que tinham osteoporose ou fratura por fragilidade. Entre elas, 15.654 haviam recebido bisfosfonatos nitrogenados.
Para tentar tornar os grupos mais comparáveis, os pesquisadores fizeram pareamento estatístico por escore de propensão ao longo do tempo. Em uma análise, compararam 10.833 usuários de bisfosfonatos com 10.833 pessoas sem tratamento para osteoporose. Em outra, compararam 3.080 usuários com 3.080 pessoas que utilizavam outros medicamentos antiosteoporose.
O uso de bisfosfonatos nitrogenados esteve associado a menor risco de diagnóstico de Alzheimer e demências relacionadas:
- cerca de 16% menor em comparação com o grupo sem tratamento;
- cerca de 24% menor em comparação com outros medicamentos para osteoporose.
Os autores também apresentaram diferenças absolutas de risco ao longo do seguimento. Esses números são interessantes para pesquisa, mas não devem ser tratados como se viessem de um ensaio clínico que comprovou prevenção.
Por que “associado a menor risco” não significa “previne”?
Porque o estudo não sorteou pessoas para receber ou não o medicamento. Ele observou o que aconteceu em dados reais de saúde.
Mesmo com técnicas estatísticas sofisticadas, podem permanecer diferenças entre quem usa um tratamento e quem não usa. Por exemplo:
- acesso e frequência de acompanhamento médico;
- adesão a outros tratamentos;
- nível de funcionalidade;
- hábitos de saúde;
- gravidade da osteoporose;
- doenças associadas;
- características que não estavam registradas no banco de dados.
Esses fatores podem influenciar tanto o uso do medicamento quanto o risco de receber um diagnóstico de demência.
Portanto, o resultado gera uma hipótese relevante, mas não demonstra que o bisfosfonato foi a causa da redução observada.
Então o estudo não tem importância?
Tem. Estudos observacionais de grande escala podem identificar sinais que merecem investigação em ensaios clínicos e pesquisas mecanísticas.
Nesse caso, a pergunta científica é legítima: medicamentos que interferem no metabolismo ósseo poderiam ter efeitos biológicos além do osso? Os próprios autores consideram possível investigar o reposicionamento desses medicamentos no futuro.
Mas existe uma distância grande entre “vale estudar” e “deve ser prescrito”.
Quem já usa bisfosfonato para osteoporose deve continuar?
A notícia sobre demência não é motivo para iniciar, interromper, trocar ou prolongar bisfosfonato por conta própria.
Quem já utiliza deve seguir o plano definido para a osteoporose e revisar periodicamente indicação, duração, adesão, efeitos adversos e risco de fratura com o profissional responsável. A decisão sobre continuidade depende do contexto ósseo — não de uma possível proteção cerebral ainda não comprovada.
E quem tem medo de Alzheimer deveria pedir bisfosfonato?
Não. O risco de demência não é, hoje, uma indicação para começar esse tipo de medicamento.
As diretrizes atuais de redução de risco de demência enfatizam medidas com base mais sólida, como atividade física, controle de hipertensão, diabetes e colesterol, cessação do tabagismo, redução do consumo nocivo de álcool, cuidado com audição, alimentação saudável, atividade social e intervenções cognitivas apropriadas.
Essas recomendações não garantem que uma pessoa não desenvolverá demência, mas estão apoiadas em um conjunto mais amplo de evidências.
Osteoporose e demência podem aparecer juntas por outros motivos?
Sim. Idade avançada, fragilidade, quedas, baixa atividade física, déficit nutricional e várias doenças crônicas podem aproximar os dois problemas sem que um medicamento explique toda a relação.
Além disso, pessoas com comprometimento cognitivo podem ter maior dificuldade para manter alimentação, atividade física, exposição solar adequada, adesão ao tratamento e prevenção de quedas. Isso reforça a necessidade de um cuidado integrado.
O que realmente muda na prática hoje?
Para a maioria das pessoas, nada na prescrição muda por causa desse estudo.
O achado é útil para acompanhar a ciência e pode motivar novos ensaios. Mas a prática atual permanece:
- tratar osteoporose quando há indicação;
- escolher o tratamento de acordo com risco de fratura e características do paciente;
- revisar regularmente segurança e adesão;
- trabalhar prevenção de quedas e manutenção de força;
- abordar redução de risco cognitivo por estratégias sustentadas por diretrizes.
Perguntas frequentes
Alendronato previne Alzheimer?
Não está comprovado. Alendronato pertence à classe dos bisfosfonatos nitrogenados estudada, mas a pesquisa observacional não permite afirmar que ele previna Alzheimer.
Ácido zoledrônico protege o cérebro?
Também não é possível fazer essa afirmação. O estudo avaliou exposição a bisfosfonatos nitrogenados como grupo e encontrou associação populacional; isso não equivale a benefício preventivo individual comprovado.
Quem não tem osteoporose deveria usar bisfosfonato para memória?
Não. Não existe indicação estabelecida para esse objetivo.
O estudo mostrou cura ou tratamento do Alzheimer?
Não. Ele avaliou o risco de receber diagnóstico de Alzheimer e demências relacionadas em pessoas com doença óssea. Não testou tratamento de pessoas com Alzheimer.
Vale conversar com o médico sobre isso?
Se a pessoa já trata osteoporose, pode ser uma boa oportunidade para revisar o tratamento ósseo e tirar dúvidas. Mas a notícia, isoladamente, não deve mudar a prescrição.
A conclusão mais segura é simples: o resultado é promissor como hipótese científica, mas ainda insuficiente para transformar bisfosfonatos em estratégia de prevenção de demência.
