Sentir ansiedade antes de uma cirurgia é comum. Em uma pessoa idosa, porém, sofrimento emocional importante não deve ser automaticamente reduzido a “nervosismo normal”. Depressão, ansiedade, alterações do sono, medo intenso e uso de medicamentos psicotrópicos podem influenciar a experiência perioperatória e merecem entrar na conversa com a equipe que prepara a operação.
Um ensaio clínico randomizado publicado em 9 de setembro de 2026 no JAMA Network Open trouxe um dado novo para essa discussão. O estudo acompanhou 306 adultos mais velhos que fariam cirurgias cardíacas, oncológicas ou ortopédicas e apresentavam sintomas clinicamente relevantes de depressão ou ansiedade. Um programa que combinou manejo psicológico e revisão farmacológica melhorou os sintomas de saúde mental três meses após a cirurgia em comparação ao cuidado usual ampliado.
O resultado é promissor, mas precisa ser lido corretamente: ele não significa que toda pessoa idosa deve iniciar terapia ou medicamento antes de operar, nem mostrou redução significativa de delirium, quedas ou readmissões hospitalares no conjunto do estudo.
Por que falar de saúde mental antes de uma cirurgia?
O pré-operatório costuma concentrar muitas perguntas sobre coração, pulmão, exames laboratoriais, anestesia e medicamentos. Tudo isso é importante. Mas a avaliação de uma pessoa idosa também ganha qualidade quando inclui como ela está emocionalmente, cognitivamente e funcionalmente.
Depressão pode aparecer como tristeza, perda de interesse, desânimo, isolamento, piora do sono, falta de apetite ou sensação de incapacidade. Ansiedade pode causar preocupação persistente, tensão, palpitação, falta de ar, dificuldade para dormir e medo desproporcional do procedimento.
Esses sintomas podem se misturar a doenças clínicas. Por isso, a ideia não é atribuir tudo à mente, e sim evitar o erro oposto: ignorar sofrimento relevante porque “é normal ter medo de cirurgia”.
Depressão antes da cirurgia significa que haverá complicações?
Não necessariamente.
Estudos observacionais e meta-análises mostram associação entre depressão pré-operatória e alguns desfechos desfavoráveis, incluindo maior ocorrência de delirium. Mas associação não prova que a depressão seja, isoladamente, a causa da complicação. Pessoas com depressão podem ter mais doenças, pior sono, menor atividade física, mais fragilidade ou outras características que também influenciam o risco.
Uma revisão de 2024 encontrou depressão em parcela relevante de pessoas idosas submetidas a cirurgia eletiva e associação com maior risco de delirium pós-operatório. Esse achado serve para aumentar a atenção clínica, não para concluir que depressão contraindica cirurgia.
O que o novo ensaio clínico mostrou?
O estudo de 2026 incluiu pacientes com idade média de aproximadamente 68 anos e sintomas significativos de depressão ou ansiedade. A intervenção reuniu acompanhamento psicológico e otimização de medicamentos quando apropriado.
Aos três meses, houve melhora modestamente maior dos sintomas de depressão e ansiedade no grupo da intervenção. O efeito não foi igual em todos os subgrupos cirúrgicos e o trabalho foi realizado em uma única rede de saúde nos Estados Unidos.
Além disso, o estudo não demonstrou diferença significativa em delirium, readmissões ou quedas. Essa é uma limitação importante para a comunicação pública: tratar melhor ansiedade e depressão pode melhorar o sofrimento emocional, mas ainda não podemos prometer que isso evitará complicações cirúrgicas.
O que vale contar à equipe no pré-operatório?
Uma boa consulta pré-operatória não depende de o paciente saber nomes técnicos. Algumas informações simples ajudam muito:
- diagnóstico prévio de depressão, ansiedade, transtorno bipolar ou outra condição de saúde mental;
- mudanças recentes de humor, medo, apatia ou irritabilidade;
- qualidade do sono e uso de remédios para dormir;
- todos os antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos e outros medicamentos em uso;
- uso de álcool ou outras substâncias;
- episódios prévios de confusão após internações ou cirurgias;
- dificuldades de memória que interferem na rotina;
- como a pessoa caminhava e realizava suas atividades antes da doença atual;
- quem poderá ajudar no retorno para casa.
Levar uma lista atualizada de medicamentos costuma ser mais seguro do que tentar lembrar tudo de cabeça.
É preciso suspender antidepressivo ou “calmante” antes da cirurgia?
Não faça isso por conta própria.
Alguns medicamentos devem ser mantidos; outros podem exigir ajuste de acordo com o tipo de cirurgia, anestesia, risco de sangramento, interações e tempo de uso. Interromper abruptamente determinados psicofármacos também pode causar sintomas de retirada ou piora importante da ansiedade e do sono.
O melhor caminho é permitir que anestesista, cirurgião e médico que acompanha o paciente revisem a lista completa. Em pessoas que usam muitos remédios, a reconciliação medicamentosa é especialmente importante.
Quando a ansiedade deixa de ser apenas o medo esperado?
Não existe uma linha perfeita, mas alguns sinais justificam atenção adicional:
- ansiedade impede dormir por vários dias;
- a pessoa não consegue compreender ou participar das decisões por causa do medo;
- surgem crises de pânico repetidas;
- há recusa persistente de alimentação ou medicamentos;
- depressão ou apatia já interferiam na vida antes da cirurgia;
- há sensação de desesperança intensa;
- aparecem pensamentos de morte ou autoagressão.
Pensamentos de autoagressão ou risco imediato exigem atendimento urgente. Nos demais casos, conversar precocemente com a equipe pode permitir apoio psicológico ou psiquiátrico antes e depois da cirurgia.
E a memória? Ela também deve ser avaliada?
Sim, principalmente quando já existem sinais prévios de comprometimento cognitivo.
Confusão após uma cirurgia não deve ser automaticamente chamada de “piora do Alzheimer”. O delirium é uma alteração aguda de atenção e consciência que pode surgir após procedimentos, infecções, dor, alterações metabólicas ou exposição a determinados medicamentos.
História de declínio cognitivo, depressão, fragilidade e outros fatores pode ajudar a equipe a identificar quem precisa de medidas preventivas e monitoramento mais próximo.
O que a família pode fazer?
A família tem um papel prático importante: ajudar a organizar documentos e medicamentos, confirmar como era a funcionalidade habitual, levar aparelhos auditivos e óculos quando indicados, colaborar com comunicação e participar do planejamento da alta.
Também vale conversar antes sobre quem ficará com a pessoa nos primeiros dias, como será o transporte e quais atividades exigirão ajuda temporária.
O objetivo não é retirar autonomia. Sempre que possível, a pessoa idosa deve continuar no centro das decisões.
Depois da cirurgia: tristeza, cansaço ou delirium?
Cansaço, dor, redução temporária da atividade e alteração do sono podem acontecer durante a recuperação. Depressão tende a produzir um padrão mais persistente de humor baixo, perda de interesse ou desesperança.
Já o delirium costuma começar de forma aguda, flutuar ao longo do dia e envolver desatenção, desorientação ou mudança incomum de comportamento. Confusão súbita merece avaliação médica e não deve ser tratada apenas como ansiedade ou depressão.
Perguntas frequentes
Ficar ansioso antes da cirurgia aumenta o risco anestésico?
Ansiedade faz parte da experiência de muitos pacientes, mas intensidade, contexto e doenças associadas importam. O risco cirúrgico não pode ser estimado apenas pelo nível de ansiedade.
Depressão impede uma pessoa idosa de operar?
Não de forma automática. A indicação da cirurgia depende de benefícios esperados, riscos, urgência, capacidade funcional, doenças associadas e preferências do paciente. Depressão relevante merece avaliação e cuidado.
Psicoterapia antes da cirurgia ajuda?
O novo ensaio sugere benefício de uma estratégia multicomponente para pacientes selecionados com sintomas relevantes, mas ainda são necessários estudos maiores para definir quais pessoas mais se beneficiam e qual formato funciona melhor.
A família deve esconder informações para não “atrasar” a cirurgia?
Não. Medicamentos, sintomas de humor, alterações cognitivas e episódios prévios de confusão são informações úteis para tornar o planejamento mais seguro.
Em resumo
A preparação para uma cirurgia em pessoas idosas vai além de exames e risco cardiológico. Saúde mental, cognição, medicamentos, funcionalidade e rede de apoio também fazem parte do quadro.
A novidade publicada em setembro de 2026 reforça que depressão e ansiedade perioperatórias podem ser tratadas e que uma estratégia estruturada pode melhorar sintomas em pacientes selecionados. O dado mais importante para a prática cotidiana, porém, é simples: sofrimento emocional relevante merece ser reconhecido, comunicado e cuidado — sem banalização, sem promessas e sem mudanças de medicamento por conta própria.
