Durante muitos anos, uma das perguntas mais difíceis da prevenção cardiovascular foi: vale a pena iniciar estatina depois dos 70 anos em alguém que nunca teve infarto ou AVC? A resposta ficou mais informada em 2026 com a publicação do estudo STAREE, um grande ensaio clínico randomizado dedicado justamente a adultos mais velhos em prevenção primária.
O estudo mostrou redução importante de eventos cardiovasculares maiores com atorvastatina em pessoas com 70 anos ou mais sem doença cardiovascular conhecida. Ao mesmo tempo, não mostrou aumento estatisticamente significativo da sobrevida livre de incapacidade, um desfecho que incluía morte, demência ou incapacidade física persistente.
Isso não significa que “todo idoso precisa tomar estatina” nem que “estatina não melhora o que importa”. Significa que benefício cardiovascular e objetivo geriátrico precisam ser interpretados juntos.
Primeiro: prevenção primária não é prevenção secundária
Essa distinção muda quase toda a conversa.
Prevenção primária é tentar evitar o primeiro evento cardiovascular em alguém que nunca teve infarto, AVC ou outra doença aterosclerótica clínica.
Prevenção secundária é reduzir o risco de novos eventos em quem já teve doença cardiovascular estabelecida. Nesse segundo cenário, a evidência para reduzir colesterol com estatinas é mais consolidada, e o STAREE não foi desenhado para questioná-la.
Portanto, uma pessoa com 78 anos que já teve infarto não deve interpretar este estudo como motivo para suspender seu tratamento. E alguém de 72 anos sem doença cardiovascular também não deve iniciar uma medicação sozinho porque leu que houve “redução de 30%”.
O que foi o estudo STAREE?
O STAREE foi um ensaio duplo-cego, randomizado e controlado por placebo conduzido na Austrália. Participaram 9.971 pessoas com pelo menos 70 anos, vivendo na comunidade, sem história clínica de doença cardiovascular, diabetes ou demência no início.
A idade média foi de aproximadamente 75 anos, e o acompanhamento mediano durou 5,9 anos.
O estudo avaliou dois grandes objetivos. Um deles foi a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores, como morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC ou necessidade de revascularização. O outro foi a chamada sobrevida livre de incapacidade, composta por morte por qualquer causa, demência ou incapacidade física persistente.
O que o estudo encontrou?
No desfecho cardiovascular, houve benefício. O grupo que recebeu atorvastatina apresentou risco aproximadamente 30% menor de eventos cardiovasculares maiores em relação ao placebo.
Já no desfecho de sobrevida livre de incapacidade, a diferença não foi estatisticamente significativa.
Essas duas informações precisam permanecer juntas. Se divulgarmos apenas a redução cardiovascular, perdemos uma pergunta central da geriatria. Se divulgarmos apenas a ausência de diferença em incapacidade, apagamos um benefício cardiovascular real demonstrado em ensaio randomizado.
Isso quer dizer que estatina não prolonga a vida com autonomia?
O estudo não demonstrou aumento significativo do desfecho composto de sobrevida livre de incapacidade ao longo do período analisado. Isso não é igual a provar que a estatina “não serve para autonomia”.
Desfechos compostos juntam eventos diferentes. Além disso, benefícios e riscos podem variar de acordo com o risco cardiovascular basal, tempo de tratamento, idade, fragilidade e expectativa de vida.
A interpretação mais correta é: no grupo estudado, a estatina reduziu eventos cardiovasculares, mas não houve evidência estatisticamente significativa de melhora do desfecho composto que incluía morte, demência e incapacidade física persistente.
Quem o STAREE representa melhor?
Esse ponto é fundamental.
Os participantes viviam na comunidade e não tinham doença cardiovascular clínica, diabetes ou demência no início. Por isso, o resultado conversa melhor com um adulto mais velho relativamente estável que está discutindo prevenção primária.
Ele não responde diretamente à mesma pergunta em:
- pessoas que já tiveram infarto, AVC ou doença arterial periférica;
- pessoas com diabetes;
- pacientes com demência estabelecida;
- idosos muito frágeis ou em fase final de vida;
- pessoas com expectativa de vida muito curta;
- residentes de instituições com alta dependência, se seu perfil for muito diferente do da população do estudo.
Não é correto extrapolar automaticamente um ensaio para grupos que ele não estudou.
Como decidir se vale a pena usar estatina depois dos 70?
A idade cronológica sozinha é insuficiente. A conversa costuma considerar vários elementos:
- risco cardiovascular global;
- níveis de LDL e outras alterações lipídicas;
- pressão arterial e tabagismo;
- função renal e hepática;
- número de medicamentos em uso e possíveis interações;
- histórico de efeitos adversos com estatinas;
- fragilidade e capacidade funcional;
- expectativa de vida;
- objetivos e preferências da pessoa.
Uma pessoa ativa, independente e com risco cardiovascular elevado pode enxergar valor em reduzir a chance de um primeiro infarto ou AVC. Outra pessoa, com fragilidade avançada, carga muito alta de medicamentos e objetivos centrados em conforto, pode ter uma relação diferente entre benefício esperado e carga de tratamento.
Esses exemplos não são regras. Eles mostram por que decisão compartilhada é mais adequada do que um corte puramente etário.
E os efeitos adversos?
No STAREE, eventos adversos graves tiveram frequência semelhante entre os grupos. Algumas categorias de eventos musculoesqueléticos, hepatobiliares e relacionados ao diabetes foram mais frequentes no grupo da atorvastatina.
Na prática, sintomas musculares, interações medicamentosas, alterações laboratoriais e impacto metabólico precisam ser avaliados no contexto individual. Em uma pessoa idosa que usa muitos medicamentos, revisar a lista completa pode ser tão importante quanto olhar apenas o colesterol.
Ter um sintoma durante o uso também não prova automaticamente que a estatina foi a causa. A avaliação deve considerar temporalidade, outras doenças e outros remédios.
Estatina causa ou previne demência?
O STAREE não deve ser usado como prova de que estatina previne Alzheimer nem de que causa demência.
Demência fez parte do desfecho composto de sobrevida livre de incapacidade, que não apresentou diferença estatisticamente significativa. Isso não equivale a um ensaio desenhado especificamente para responder se estatinas previnem uma doença neurodegenerativa.
Quando surgir uma manchete ligando estatina e memória, vale perguntar: o estudo era randomizado? Qual era a população? Qual era o desfecho? Houve avaliação específica de demência? Essa leitura evita conclusões maiores do que os dados permitem.
Já tomo estatina: devo parar ao completar 70, 80 ou 90 anos?
Não existe uma idade automática para suspender.
A decisão de continuar ou desprescrever deve levar em conta por que a estatina foi iniciada, benefício esperado, tolerabilidade, risco cardiovascular, fragilidade, prognóstico, interações e objetivos de cuidado.
Em prevenção secundária, retirar uma terapia eficaz pode aumentar risco cardiovascular em determinadas pessoas. Em prevenção primária, o equilíbrio pode ser diferente. Em ambos os casos, não é recomendável interromper por conta própria.
Ainda vale cuidar de alimentação e exercício?
Sim. Estatina não substitui atividade física compatível com a condição clínica, alimentação adequada, controle da pressão, cessação do tabagismo e cuidado com diabetes quando presente.
Para o idoso, prevenção cardiovascular também deve considerar força, equilíbrio, mobilidade, nutrição e prevenção de quedas. O objetivo não é “tratar um número de colesterol”, mas reduzir eventos que podem comprometer vida e funcionalidade.
Perguntas frequentes
Toda pessoa com mais de 70 anos deve tomar estatina?
Não. O STAREE demonstra que há benefício cardiovascular em uma população selecionada, mas a decisão individual depende de risco, saúde global, tolerabilidade e preferências.
O estudo vale para quem já teve infarto?
Não como estudo de prevenção secundária. Pessoas com doença cardiovascular conhecida pertencem a outro cenário clínico, no qual existe evidência específica de tratamento.
Se a pessoa tem diabetes, o resultado é igual?
O STAREE excluiu diabetes no início. Portanto, não devemos usar esse ensaio isoladamente para definir a conduta de pessoas com diabetes.
Estatina impediu incapacidade no estudo?
Não houve aumento estatisticamente significativo da sobrevida livre de incapacidade, apesar da redução dos eventos cardiovasculares maiores.
Posso começar ou parar a medicação baseado no estudo?
Não. O ensaio informa a conversa médica, mas não substitui avaliação individual de risco, medicamentos, efeitos adversos e objetivos.
Em resumo
O STAREE preenche uma lacuna importante: mostrou que, em adultos comunitários com 70 anos ou mais sem doença cardiovascular, diabetes ou demência, a atorvastatina reduziu eventos cardiovasculares maiores ao longo de quase seis anos de acompanhamento. Ao mesmo tempo, não aumentou de forma estatisticamente significativa a sobrevida livre de incapacidade.
A mensagem geriátrica não é “usar” ou “não usar” estatina pela idade. É entender qual evento queremos evitar, quanto tempo existe para obter benefício, qual é a carga do tratamento e o que importa para aquela pessoa. O ensaio melhora a evidência; a decisão continua sendo individual e compartilhada.
