← Todos os artigos

24 de outubro de 2026

Golpes contra idosos: como reconhecer falsos agentes de saúde e proteger documentos e biometria

Saiba como identificar falsos agentes de saúde, proteger documentos, senhas e biometria e agir rapidamente diante de empréstimos ou descontos consignados não reconhecidos.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

A resposta curta é: não entregue senha, cartão, código de confirmação, dinheiro, foto de documentos ou dados biométricos a alguém que apareça, ligue ou envie mensagem sem que você tenha confirmado a identidade dessa pessoa. Profissionais e agentes legítimos não devem pressionar o idoso a agir com urgência nem pedir informações bancárias para liberar benefício ou realizar uma suposta prova de vida.

Golpistas usam a confiança que muitas pessoas têm em profissionais de saúde, agentes públicos e instituições conhecidas. O objetivo pode ser obter documentos, selfies, reconhecimento facial, impressão digital, senhas ou códigos para contratar empréstimos e cartões em nome da vítima.

Como funciona o golpe que usa a confiança em agentes ou profissionais de saúde

A abordagem pode ocorrer na porta de casa, por telefone, WhatsApp, videochamada ou redes sociais. A pessoa afirma ser agente de saúde, funcionário do INSS, representante de banco ou profissional responsável por algum benefício.

Ela pode dizer que precisa:

  • atualizar o cadastro;
  • fazer uma prova de vida;
  • liberar um benefício ou medicamento;
  • corrigir um pagamento;
  • confirmar dados para evitar o bloqueio do benefício;
  • realizar uma “biometria” ou tirar uma selfie;
  • verificar o cartão ou o celular.

Depois, pede uma foto do RG, CPF ou cartão. Também pode solicitar que o idoso diga um código recebido por SMS, informe a senha, faça uma transferência ou permita acesso remoto ao celular.

O Banco Central alerta que golpes podem usar dados pessoais e reconhecimento facial para tentar contratar empréstimos. Por isso, uma foto aparentemente inocente pode ter consequências importantes quando combinada com outras informações.

Sinais de alerta

Desconfie quando houver:

  • urgência ou ameaça, como “faça agora ou perderá o benefício”;
  • promessa de dinheiro, benefício, desconto ou atendimento especial;
  • pedido de visita inesperada à residência;
  • solicitação de foto segurando documento;
  • pedido de senha, código de SMS, token ou confirmação no aplicativo;
  • pedido do cartão, número completo, código de segurança ou acesso ao celular;
  • pedido de impressão digital, reconhecimento facial ou gravação de voz sem explicação clara;
  • insistência para que o idoso não conte à família;
  • cobrança, transferência ou pagamento para liberar um serviço;
  • contato por número desconhecido, mesmo que a pessoa use logotipo, crachá ou uniforme.

Um crachá, uma chamada de vídeo ou o conhecimento de alguns dados do idoso não provam que a pessoa seja legítima.

O que um profissional legítimo não deve pedir

Em geral, não é adequado que um agente ou profissional peça ao idoso:

  • senha de banco ou do cartão;
  • código recebido por SMS ou aplicativo;
  • cartão bancário para “conferência”;
  • transferência ou pagamento para liberar benefício;
  • acesso ao aplicativo bancário;
  • foto do documento sem uma finalidade clara e verificável;
  • reconhecimento facial ou impressão digital em aparelho de desconhecido.

Se houver dúvida, encerre a conversa com educação: “Vou confirmar esse procedimento pelos canais oficiais e depois retorno.” Não use o telefone fornecido pela própria pessoa. Procure o número no cartão, no aplicativo oficial, no site do órgão ou em uma conta já conhecida.

Como proteger documentos, celular e biometria

Mantenha RG, CPF, cartão e comprovantes guardados. Evite enviar fotos completas por mensagens. Quando uma cópia for realmente necessária, confirme quem receberá, para qual finalidade e como será armazenada.

Também ajuda:

  1. Use senhas diferentes para banco, e-mail e celular.
  2. Não anote senhas no verso do cartão ou em local visível.
  3. Ative bloqueio de tela e autenticação em duas etapas quando disponível.
  4. Nunca compartilhe códigos de confirmação.
  5. Não permita que desconhecidos instalem aplicativos ou controlem o celular.
  6. Faça atualizações do sistema e dos aplicativos.
  7. Evite realizar biometria em aparelhos de terceiros sem confirmar o serviço.
  8. Confira notificações bancárias e extratos com frequência.
  9. Combine com alguém de confiança uma forma de conferir abordagens suspeitas, sem retirar do idoso o controle das próprias decisões.

Cuidados em visitas, ligações e videochamadas

Em uma visita inesperada, não abra completamente a porta antes de confirmar a identidade. Se necessário, peça nome, instituição e motivo da visita. Ligue para a unidade de saúde, prefeitura, INSS ou banco usando um canal oficial.

Em ligações, não confirme dados só porque a pessoa já sabe seu nome, CPF parcial ou endereço. Em mensagens, não clique em links recebidos sem verificar a origem. Em videochamadas, lembre-se de que a imagem e a voz não garantem autenticidade.

O idoso pode pedir tempo para conversar com um familiar, cuidador ou pessoa de confiança. Isso não é falta de autonomia. É uma medida de segurança.

Se o idoso informou dados, enviou foto ou fez biometria

Aja sem culpa e sem bronca. Quanto mais cedo a reação, melhor. Faça o seguinte:

  • interrompa o contato com o suspeito;
  • não envie novos documentos ou códigos;
  • comunique imediatamente o banco pelos canais oficiais;
  • peça orientação para bloquear cartões, acessos ou operações suspeitas;
  • troque senhas que possam ter sido expostas;
  • verifique extratos, contratos, notificações e descontos no benefício;
  • consulte o Registrato, do Banco Central, para verificar empréstimos e contas relacionados ao CPF;
  • guarde prints, números de telefone, mensagens, comprovantes e horários;
  • registre boletim de ocorrência.

Empréstimo ou desconto consignado não reconhecido: o que fazer

Primeiro, fale com o banco ou a instituição financeira pelos canais oficiais e solicite a contestação da operação. Peça número de protocolo e registre a data, o horário e o nome do atendimento.

No caso de benefício do INSS, também é possível buscar orientação pelo Meu INSS e pelo telefone 135. O serviço oficial “Solicitar Exclusão de Empréstimo Consignado” orienta sobre reclamação, denúncia e pedido de exclusão de empréstimo não reconhecido.

Se o problema não for resolvido, procure o consumidor.gov.br, o Procon ou outro órgão de defesa do consumidor. O Banco Central também orienta registrar a ocorrência e fazer reclamação pelos canais disponíveis. A polícia deve ser procurada para o registro do golpe, especialmente quando houve uso de documentos, fraude ou prejuízo financeiro.

Não faça novos pagamentos ao golpista para “cancelar” o contrato. Não assine documentos sem entender o conteúdo.

Como conversar sem vergonha e sem infantilizar

Golpes podem acontecer com qualquer pessoa. Dizer “como você caiu nisso?” aumenta a vergonha e pode fazer o idoso esconder o problema.

Prefira frases como:

  • “Vamos conferir juntos o que aconteceu.”
  • “Você fez bem em me contar.”
  • “Ninguém deve pedir sua senha ou código.”
  • “Vamos proteger sua conta e decidir os próximos passos.”

A rede de proteção deve respeitar a vontade e a privacidade do idoso. É possível combinar regras simples: quem será avisado diante de uma abordagem suspeita, como revisar extratos e quais canais oficiais serão usados. O objetivo é apoiar decisões, não tomar o lugar da pessoa automaticamente.

Quando procurar um geriatra

Procure um geriatra quando houver mudanças recentes de memória, atenção, julgamento, comportamento ou organização financeira. Também vale conversar com o médico se o idoso ficou muito angustiado, envergonhado, isolado ou passou a depender de outras pessoas para tarefas que antes realizava bem.

A avaliação geriátrica pode ajudar a entender necessidades de saúde, comunicação e apoio, sempre preservando a autonomia possível. Suspeita de golpe, porém, também exige contato rápido com banco, órgãos de defesa do consumidor e autoridades.

Perguntas frequentes

Agente de saúde pode pedir meus documentos?

Pode haver situações oficiais em que dados sejam necessários, mas a finalidade e a instituição devem ser confirmadas por canais independentes. Senhas, códigos bancários, cartão e dinheiro não devem ser entregues.

Posso fazer uma selfie para provar que sou eu?

Somente após confirmar diretamente o serviço e o canal oficial. Não faça reconhecimento facial ou envie selfie para uma pessoa que ligou ou apareceu sem agendamento e identificação verificável.

E se o golpista disser que é do INSS?

Não forneça dados nem faça pagamentos. O INSS informa que não liga nem vai à residência para pedir dados pessoais ou pagamento relacionados à prova de vida. Confirme qualquer orientação pelo Meu INSS ou pelo telefone 135.

O idoso deve deixar de usar celular ou banco digital?

Não. Tecnologia pode ampliar a autonomia. O mais seguro é aprender a reconhecer abordagens suspeitas, usar recursos de proteção e ter uma rede de apoio combinada, sem vigilância excessiva ou retirada automática da independência.

Perguntas dos leitores

Ficou com alguma dúvida?

Envie uma pergunta. Dúvidas de interesse geral podem inspirar um novo artigo do blog, sempre após pesquisa e revisão editorial.

Não envie nome de paciente, exames, documentos ou outras informações pessoais de saúde. A pergunta poderá ser adaptada e anonimizada para conteúdo educativo e não substitui avaliação médica individual.

Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.