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16 de agosto de 2026

Idoso dormindo demais durante o dia: quando é normal e quando investigar?

Cochilar pode fazer parte da rotina, mas dormir grande parte do dia ou ficar sonolento de forma nova pode indicar sono noturno ruim, apneia, efeito de medicamentos, depressão ou doença clínica.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

Um cochilo depois do almoço pode fazer parte da rotina de muitas pessoas idosas. O problema é quando o sono durante o dia se torna tão intenso que a pessoa passa boa parte do tempo dormindo, cochila repetidamente sem querer ou perde atividades que antes realizava normalmente.

Nessas situações, não é adequado explicar tudo como “coisa da idade”. A sonolência diurna excessiva em idosos costuma ter várias causas possíveis e pode estar relacionada ao sono noturno, aos medicamentos, ao humor, a doenças clínicas ou a distúrbios como a apneia obstrutiva do sono.

O sono realmente muda com o envelhecimento?

Sim. Com o passar dos anos, o sono pode ficar mais fragmentado e superficial. Muitas pessoas passam a acordar mais vezes durante a noite, dormir e acordar mais cedo e sentir necessidade de pequenos cochilos durante o dia.

Isso, porém, é diferente de sonolência excessiva. Quando a pessoa não consegue permanecer desperta em situações em que normalmente deveria estar alerta — conversando, lendo, assistindo televisão ou participando de uma atividade — vale investigar.

Uma revisão específica sobre sonolência em idosos destaca que o problema costuma ser multifatorial e pode sinalizar distúrbio do sono, doença crônica, transtorno de humor ou efeito de medicamentos.

Por que um idoso pode dormir demais durante o dia?

Sono noturno ruim

Às vezes a pessoa fica muitas horas na cama, mas o sono não é restaurador. Dor, necessidade frequente de urinar, falta de ar, refluxo, ansiedade, ruído e despertares repetidos podem fragmentar a noite.

O resultado aparece durante o dia: cansaço, falta de disposição e cochilos frequentes.

Apneia obstrutiva do sono

Ronco alto, pausas percebidas na respiração, engasgos durante a noite, sono agitado e sonolência diurna podem sugerir apneia do sono. Em pessoas mais velhas, os sintomas nem sempre são tão típicos quanto em adultos mais jovens.

A avaliação é particularmente importante quando a sonolência convive com hipertensão, obesidade, arritmias, doença cardiovascular ou quedas de atenção durante o dia.

Medicamentos

Alguns medicamentos podem provocar sonolência como efeito adverso. Isso pode ocorrer com certos remédios para dormir, ansiedade, dor, alergias, epilepsia e outros problemas de saúde.

Um estudo com adultos mais velhos encontrou associação entre maior exposição a medicamentos com potencial de causar sonolência e sintomas como excesso de sono durante o dia ou sono prolongado.

Isso não significa que o medicamento seja “errado” ou deva ser suspenso. A pergunta correta é: o benefício continua maior do que o risco para esta pessoa, nesta fase da vida?

Depressão e alterações de humor

Depressão em idosos nem sempre aparece apenas como tristeza. Pode se manifestar por perda de interesse, isolamento, redução da energia, alteração do apetite e mudanças importantes no padrão de sono.

Por isso, uma pessoa que “passou a dormir o dia todo” merece uma avaliação que considere também o humor e mudanças recentes na vida.

Doenças clínicas e perda de condicionamento

Infecções, anemia, alterações da tireoide, doenças cardíacas ou pulmonares, descontrole do diabetes e outras condições podem provocar fadiga e sonolência.

Além disso, passar muito tempo na cama pode gerar um círculo vicioso: menos atividade leva a perda de força e condicionamento, o que reduz ainda mais a disposição para permanecer ativo.

O que a família deve observar antes da consulta?

Um pequeno diário por alguns dias pode ajudar bastante. Anote:

  • horário em que a pessoa dorme e acorda;
  • quantas vezes desperta à noite;
  • duração aproximada dos cochilos;
  • presença de ronco, engasgos ou pausas respiratórias;
  • horários dos medicamentos;
  • mudança recente de alguma prescrição;
  • redução do interesse por atividades;
  • quedas, tontura ou confusão;
  • uso de álcool;
  • mudanças de apetite ou peso.

O objetivo não é transformar a família em fiscal do sono, e sim dar contexto para a avaliação médica.

É bom impedir o idoso de cochilar?

Nem sempre. Cochilos curtos podem ser confortáveis e não necessariamente representam doença.

O que merece atenção é quando o cochilo passa a ocupar grande parte do dia, prejudica o sono noturno ou aparece junto com perda funcional. Forçar uma pessoa sonolenta a permanecer acordada sem investigar a causa pode apenas mascarar o problema.

Uma rotina com exposição à luz do dia, atividade física compatível com a capacidade, horários regulares e participação em atividades sociais costuma favorecer um ritmo de sono mais organizado. Essas medidas devem ser adaptadas às condições clínicas de cada pessoa.

Quando a sonolência pode ser urgência?

Procure avaliação imediata se a pessoa estiver muito mais sonolenta do que o habitual, especialmente se houver:

  • dificuldade para acordá-la;
  • confusão súbita;
  • fraqueza em um lado do corpo ou alteração da fala;
  • falta de ar importante;
  • dor no peito;
  • febre com piora importante do estado geral;
  • queda ou trauma recente;
  • suspeita de uso incorreto ou excesso de medicamentos.

Uma mudança abrupta no nível de consciência não deve ser atribuída simplesmente à idade ou ao “cansaço”.

Quando procurar um geriatra?

A consulta geriátrica é útil quando o excesso de sono é persistente ou se acompanha de vários problemas ao mesmo tempo: muitos medicamentos, perda de memória, alteração de humor, quedas, perda de força, dificuldade para caminhar ou múltiplas doenças crônicas.

A investigação pode incluir revisão do sono noturno, medicamentos, humor, cognição, exames laboratoriais quando indicados e avaliação para apneia ou outros distúrbios do sono.

Perguntas frequentes

É normal uma pessoa idosa dormir o dia inteiro?

Não é considerado uma consequência inevitável do envelhecimento. Pequenos cochilos podem ser normais, mas sonolência persistente ou perda de atividades por excesso de sono merece investigação.

Roncar significa que a pessoa tem apneia?

Não necessariamente. Ronco é comum e nem todo roncador tem apneia. Porém, ronco alto associado a pausas respiratórias, engasgos e sonolência diurna aumenta a suspeita e deve ser discutido com um profissional de saúde.

Remédio para dormir pode deixar o idoso sonolento no dia seguinte?

Pode acontecer, dependendo do medicamento, da dose, do horário de uso, da função renal ou hepática e da interação com outros fármacos. Não suspenda a medicação sem orientação; leve a lista completa para revisão.

Dormir demais pode aumentar o risco de queda?

A sonolência pode reduzir atenção e estabilidade, e alguns estudos relacionam sonolência excessiva a pior funcionalidade e maior risco de quedas. O mais importante é procurar a causa subjacente.

Em resumo

Dormir um pouco durante o dia pode fazer parte da rotina. Dormir demais, entretanto, não deve ser automaticamente normalizado pela idade. Sono noturno inadequado, apneia, medicamentos, depressão e doenças clínicas são algumas das possibilidades.

Se o padrão mudou ou está prejudicando a autonomia da pessoa idosa, a avaliação médica pode ajudar a encontrar a causa e organizar um plano mais seguro.

Fontes científicas principais

  • Zalai D, Bingeliene A, Shapiro C. Sleepiness in the Elderly. Sleep Medicine Clinics, 2017.
  • Wang e colaboradores. Prevalence, dimensions, and correlates of excessive daytime sleepiness in community-dwelling older adults. Annals of Medicine, 2024.
  • Wilder J et al. Use of Medications With Somnolence Adverse Effects and Somnolence Symptoms Among Older Adults in the U.S. Journal of Aging and Health, 2025.
Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.