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19 de setembro de 2026

Remédios que podem aumentar o risco de queda no idoso: quando revisar a prescrição

Alguns medicamentos podem favorecer sonolência, tontura, queda de pressão ou desequilíbrio em pessoas idosas. Veja quais grupos merecem revisão e por que não se deve suspender remédios por conta própria.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

Quando uma pessoa idosa cai, é tentador procurar uma única causa: um tapete, um degrau ou “fraqueza nas pernas”. Na prática, quedas costumam resultar da combinação de fatores. Medicamentos podem participar desse risco, principalmente quando causam sonolência, lentificação, tontura, queda de pressão ao levantar ou piora do equilíbrio.

Isso não significa que todo remédio de uma determinada classe seja inadequado nem que uma queda seja motivo para interromper tratamento por conta própria. A pergunta mais útil é: depois de uma queda, de tontura ou de uma mudança na marcha, a prescrição merece ser revisada? Muitas vezes, sim.

O que são medicamentos que aumentam o risco de quedas?

Na literatura geriátrica, usa-se a expressão fall-risk-increasing drugs — medicamentos associados a maior risco de quedas. Ferramentas como o STOPPFall organizam classes que merecem atenção especial em pessoas com risco elevado.

O risco não vem apenas do nome do medicamento. Ele depende de dose, combinação com outros remédios, motivo do uso, função renal e hepática, pressão arterial, consumo de álcool, fragilidade, visão, equilíbrio e histórico de quedas.

Por isso, uma lista nunca substitui avaliação individual.

Como um remédio pode contribuir para uma queda?

Existem alguns caminhos frequentes.

Sonolência e redução do tempo de reação

Medicamentos sedativos podem deixar a pessoa menos alerta, principalmente à noite ou ao levantar para ir ao banheiro. O problema pode ser maior quando mais de um remédio com efeito sedativo é usado ao mesmo tempo.

Queda de pressão ao levantar

Alguns medicamentos podem contribuir para hipotensão ortostática: a pressão cai ao passar de deitado ou sentado para a posição em pé. A pessoa pode sentir tontura, visão escurecida, fraqueza ou instabilidade.

Alteração de equilíbrio e coordenação

Medicamentos que atuam no sistema nervoso central podem interferir em equilíbrio, atenção ou coordenação. Em quem já tem dificuldade de marcha, neuropatia, doença de Parkinson ou fragilidade, pequenos efeitos podem se somar.

Confusão ou delirium

Em pessoas vulneráveis, alguns medicamentos podem contribuir para confusão aguda. Uma pessoa desorientada, impulsiva ou sonolenta tem maior chance de levantar sem segurança.

Quais grupos merecem atenção especial?

O STOPPFall, elaborado por especialistas europeus, incluiu diversas classes associadas a risco de quedas. Entre elas estão benzodiazepínicos e medicamentos semelhantes usados para dormir, antidepressivos, antipsicóticos, opioides, alguns anticonvulsivantes, medicamentos com efeito anticolinérgico, diuréticos e alguns fármacos que reduzem a pressão arterial ou alteram o tônus vascular.

Isso não quer dizer que essas classes sejam proibidas em idosos. Em determinadas situações, o benefício pode ser maior que o risco. O ponto é que, em uma pessoa que caiu, passou a ficar tonta ou está mais sonolenta, esses medicamentos merecem ser revistos dentro do contexto clínico.

O que o estudo divulgado em setembro de 2026 acrescentou?

Um estudo do Irish Longitudinal Study on Ageing acompanhou tendências em adultos com 65 anos ou mais vivendo na comunidade. Entre as ondas analisadas, a proporção populacional ponderada de pessoas que relataram quedas aumentou de 22,1% no início do estudo para 29,8% na onda mais recente.

Os pesquisadores também observaram frequência persistente de fatores potencialmente modificáveis: mais de um quarto usava pelo menos um medicamento classificado pelo STOPPFall, mais de um quinto apresentava hipotensão ortostática e mais de um quarto tinha limitação de mobilidade nas diferentes ondas.

Esse estudo é importante por mostrar que quedas não são apenas acidentes ambientais. Medicamentos, pressão ao levantar e mobilidade fazem parte de uma avaliação multifatorial.

Ao mesmo tempo, ele não prova que os medicamentos tenham causado cada queda individualmente. O desenho é populacional e observacional para essas associações.

Depois de uma queda, devo parar os remédios?

Não. Interromper medicamentos por conta própria pode ser perigoso. Alguns fármacos exigem redução gradual; outros controlam doenças cuja descompensação também aumenta risco de internação, tontura ou queda.

Uma revisão segura procura responder perguntas como:

  • todos os medicamentos ainda têm uma indicação atual?
  • houve inclusão ou aumento recente de algum remédio?
  • existe duplicidade de efeito?
  • há mais de um medicamento sedativo?
  • a pessoa começou a cair depois de uma mudança na prescrição?
  • há tontura ao levantar?
  • pressão e frequência cardíaca estão adequadas?
  • houve piora de função renal, perda de peso ou mudança importante de alimentação?
  • algum medicamento está sendo usado para tratar um efeito adverso de outro?

O objetivo não é “tirar remédios” indiscriminadamente. É reduzir carga de tratamento desnecessária e preservar o que realmente traz benefício.

Remédio para dormir é um problema frequente?

Pode ser. Benzodiazepínicos e medicamentos sedativos semelhantes estão entre os grupos que merecem especial atenção em pessoas com quedas ou instabilidade.

O risco pode aparecer como sonolência residual pela manhã, lentificação, confusão ou piora do equilíbrio. O uso prolongado também pode tornar a retirada mais complexa. Por isso, não é adequado suspender abruptamente sem orientação.

Quando insônia é o problema principal, vale revisar causa, rotina do sono, dor, ansiedade, apneia, medicamentos estimulantes e alternativas não farmacológicas.

E os remédios para pressão?

Também precisam de contexto. Controlar hipertensão é importante para reduzir risco cardiovascular, mas uma pessoa que apresenta tontura ao levantar, desmaios ou quedas pode precisar de revisão de pressão em diferentes posições, hidratação, horários e conjunto da prescrição.

Isso não significa abandonar metas de pressão. Significa evitar que o tratamento seja avaliado apenas pelo número sentado no consultório.

Polifarmácia significa que a pessoa vai cair?

Não necessariamente. Polifarmácia descreve o uso de vários medicamentos e pode ser justificável em quem tem múltiplas doenças. O risco aumenta quando há fármacos sem benefício atual, interações, duplicidades ou efeitos adversos cumulativos.

Uma pessoa pode usar muitos remédios de forma apropriada; outra pode usar poucos e ainda assim ter um medicamento particularmente problemático. O número isolado não resolve a avaliação.

O que levar para uma revisão de medicamentos?

Uma revisão fica muito melhor quando a família leva tudo o que realmente é usado, não apenas a receita mais recente:

  • caixas ou fotos dos medicamentos;
  • vitaminas e suplementos;
  • remédios “se necessário”;
  • colírios, gotas e produtos para dormir;
  • horários reais de uso;
  • relato de quedas, quase-quedas e tonturas;
  • data aproximada de quando os sintomas começaram.

Uma linha do tempo simples — “começou o remédio, duas semanas depois passou a ficar tonto” — pode ser mais útil do que uma lista sem contexto.

Queda raramente é só remédio

Mesmo quando a prescrição participa do risco, outras dimensões precisam ser consideradas: força muscular, visão, calçados, ambiente, marcha, pressão ortostática, cognição, álcool, urgência urinária, dor e medo de cair.

As diretrizes internacionais recomendam avaliação multifatorial para pessoas com maior risco, justamente porque corrigir apenas um fator pode ser insuficiente.

Perguntas frequentes

Antidepressivo pode aumentar risco de queda?

Alguns antidepressivos aparecem entre classes associadas a quedas, mas indicação, tipo de medicamento, dose e contexto importam. Não suspenda tratamento de depressão por conta própria.

Diurético pode causar queda?

Pode contribuir em determinadas pessoas por alterações de volume, pressão ou eletrólitos, mas também pode ser essencial no tratamento de insuficiência cardíaca e outras condições. A revisão precisa equilibrar riscos e benefícios.

Cair uma vez já é motivo para revisar a prescrição?

Uma queda pode ter causa circunstancial, mas em pessoas idosas vale verificar se houve tontura, perda de consciência, mudança de medicamento ou outros fatores de risco. Quedas recorrentes ou inexplicadas tornam a avaliação ainda mais importante.

O geriatra pode retirar medicamentos?

O geriatra pode revisar indicação, interações, efeitos adversos e prioridades terapêuticas, articulando mudanças com outros profissionais quando necessário. O objetivo é simplificar com segurança, não retirar tratamento útil.

Em resumo

Alguns medicamentos podem aumentar o risco de quedas por sonolência, hipotensão, confusão ou alteração do equilíbrio. Isso é especialmente relevante quando a pessoa usa vários fármacos, começou a cair após uma mudança de prescrição ou apresenta tontura ao levantar.

A conduta correta não é interromper remédios por conta própria. É revisar indicação, benefício, efeitos adversos, combinações e relação temporal com os sintomas.

Quedas são multifatoriais. Uma boa prevenção olha ao mesmo tempo para medicamentos, pressão, mobilidade, força, visão, ambiente e objetivos da pessoa idosa.

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Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.