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16 de agosto de 2026

Muitos remédios no idoso: quando a polifarmácia vira um risco?

Usar vários medicamentos pode ser necessário, mas também aumenta a complexidade do cuidado. Veja quando revisar a prescrição, quais sinais observar e por que nenhum remédio deve ser suspenso por conta própria.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

É comum uma pessoa idosa tratar mais de uma doença ao mesmo tempo. Hipertensão, diabetes, osteoporose, dor crônica, depressão, problemas cardíacos e distúrbios do sono podem exigir diferentes tratamentos. Por isso, usar vários medicamentos não significa automaticamente que exista um erro.

O problema aparece quando o conjunto de remédios deixa de ser bem coordenado: há duplicidades, interações, medicamentos que já não são necessários, efeitos adversos ou um esquema tão complexo que passa a ser difícil segui-lo com segurança.

Essa situação costuma ser discutida dentro do conceito de polifarmácia.

O que é polifarmácia?

Em muitos estudos, polifarmácia é definida como o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos. Esse número, porém, é apenas um ponto de referência. Uma pessoa pode precisar de sete medicamentos bem indicados e tolerados, enquanto outra pode ter problemas importantes com três.

Por isso, a pergunta mais útil não é “quantos remédios o idoso toma?”, mas sim:

cada medicamento ainda tem uma indicação clara, benefício esperado e segurança aceitável para esta pessoa?

A revisão precisa considerar doenças, função renal e hepática, pressão arterial, risco de quedas, memória, autonomia, expectativa de benefício e objetivos de cuidado.

Por que a idade muda a forma como o organismo lida com medicamentos?

Com o envelhecimento, a composição corporal e a função de órgãos envolvidos na eliminação de medicamentos podem mudar. Além disso, idosos têm maior probabilidade de conviver com múltiplas doenças e de receber prescrições de profissionais diferentes.

Isso aumenta a chance de:

  • interação entre medicamentos;
  • duplicidade de tratamentos;
  • efeitos sedativos somados;
  • queda de pressão;
  • confusão ou piora da atenção;
  • constipação e retenção urinária;
  • alterações de equilíbrio;
  • sangramentos;
  • alterações da glicose;
  • dificuldade para organizar horários e doses.

Nem todo sintoma novo é causado por um remédio, mas medicamentos devem fazer parte da investigação.

Quais sinais podem indicar que está na hora de revisar a prescrição?

Uma revisão é especialmente importante quando surge:

  • tontura ou desmaio;
  • quedas recentes;
  • sonolência excessiva;
  • confusão ou mudança de comportamento;
  • perda de apetite;
  • náuseas ou constipação persistente;
  • pressão muito baixa;
  • dificuldade para organizar os horários;
  • uso repetido do mesmo princípio ativo em marcas diferentes;
  • internação recente ou alta hospitalar com mudança da receita.

Também vale revisar periodicamente quando a pessoa usa muitos medicamentos mesmo sem sintomas aparentes.

Existe uma lista de remédios “proibidos” para idosos?

Não exatamente. Existem instrumentos que ajudam profissionais a identificar medicamentos que podem ser potencialmente inadequados em determinadas situações.

Um dos mais conhecidos é o Critério de Beers, atualizado pela American Geriatrics Society. Ele reúne medicamentos e combinações que merecem cautela em adultos com 65 anos ou mais por apresentarem, em certos contextos, uma relação desfavorável entre benefício e risco.

A palavra mais importante é “potencialmente”. Um medicamento presente nessas listas pode ser apropriado para uma pessoa específica. O instrumento serve para provocar uma revisão clínica, e não para substituir o julgamento médico.

Desprescrever é simplesmente cortar remédios?

Não. Desprescrição é um processo planejado e supervisionado para reduzir ou interromper medicamentos quando o risco passa a superar o benefício ou quando o tratamento já não faz sentido para os objetivos daquela pessoa.

Isso pode incluir:

  1. confirmar todos os medicamentos realmente utilizados;
  2. identificar por que cada um foi iniciado;
  3. avaliar benefício atual e possíveis danos;
  4. procurar duplicidades e interações;
  5. priorizar quais medicamentos poderiam ser reduzidos ou retirados;
  6. acompanhar sintomas depois da mudança.

Alguns fármacos precisam ser reduzidos gradualmente. Outros não devem ser interrompidos de forma abrupta. Por isso, a família não deve “limpar a receita” por conta própria.

A revisão de medicamentos realmente ajuda?

Estudos recentes continuam investigando a melhor forma de fazer isso. Um ensaio clínico publicado em Age and Ageing em 2026 avaliou revisão de medicamentos com foco em desprescrição em idosos com hiperpolifarmácia. A intervenção aumentou o número de medicamentos reduzidos ou suspensos, embora não tenha mostrado diferença significativa em qualidade de vida ou problemas de saúde no período analisado.

Isso é importante porque evita uma mensagem simplista: tirar mais remédios não é, por si só, o objetivo. O objetivo é tornar o tratamento mais apropriado, seguro e alinhado às prioridades da pessoa idosa.

Como a família pode preparar uma revisão de medicamentos?

Uma estratégia prática é levar para a consulta todos os medicamentos realmente usados, e não apenas a receita mais recente.

Inclua:

  • remédios prescritos por diferentes médicos;
  • medicamentos comprados sem receita;
  • vitaminas e suplementos;
  • colírios, pomadas e inaladores;
  • medicamentos usados apenas “quando precisa”.

Se possível, leve as próprias caixas ou uma lista com nome, dose, horário e motivo de uso.

Também anote sintomas recentes e quando começaram. A relação entre o início de um medicamento e uma nova queixa pode ser uma pista importante.

O que nunca fazer por conta própria?

Não suspenda de forma abrupta medicamentos para pressão, coração, epilepsia, ansiedade, depressão, sono, dor crônica ou outros tratamentos sem orientação.

A interrupção inadequada pode causar rebote de sintomas, descompensação da doença ou outros eventos adversos.

Da mesma forma, não é seguro usar o remédio de outro familiar ou duplicar uma dose porque “a pressão estava alta” ou “a glicose subiu”.

Quando procurar um geriatra?

O geriatra pode ser especialmente útil quando existem múltiplos médicos, múltiplas doenças e múltiplos medicamentos. A consulta permite avaliar o conjunto, e não cada doença isoladamente.

Essa revisão pode integrar:

  • riscos e benefícios de cada medicamento;
  • função renal;
  • pressão arterial;
  • quedas e equilíbrio;
  • memória e cognição;
  • sono;
  • dor;
  • capacidade de administrar a própria medicação;
  • prioridades e objetivos do paciente e da família.

Em muitos casos, o melhor cuidado não é adicionar mais um remédio, mas organizar melhor o que já está sendo usado.

Perguntas frequentes

Cinco remédios já significam polifarmácia perigosa?

Não. Cinco ou mais medicamentos é uma definição usada em muitos estudos, mas o número isolado não define se o tratamento é inadequado. Importam indicação, benefício, interação, tolerabilidade e capacidade de uso seguro.

Se o idoso está bem, precisa revisar os medicamentos?

Sim, periodicamente. Doenças, função renal, peso, alimentação e objetivos de tratamento mudam ao longo do tempo. Uma receita adequada há dois anos pode precisar de ajustes hoje.

Vitaminas e suplementos entram na revisão?

Sim. Eles também podem causar efeitos adversos ou interagir com medicamentos. Leve todos para a consulta.

Quem pode retirar um medicamento?

A decisão deve ser feita por um profissional habilitado que conheça a indicação e o quadro clínico. Quando há vários prescritores, a comunicação entre eles é especialmente importante.

Em resumo

Polifarmácia não significa simplesmente “tomar muitos remédios”. O verdadeiro problema é o uso de medicamentos sem benefício suficiente, com riscos evitáveis ou sem coordenação adequada.

Uma revisão estruturada pode identificar oportunidades de simplificar o tratamento, reduzir efeitos adversos e tornar a rotina mais segura — sempre com acompanhamento profissional.

Fontes científicas principais

  • American Geriatrics Society. 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. Journal of the American Geriatrics Society, 2023.
  • Baas G et al. Deprescribing in older patients with hyperpolypharmacy: a cluster-randomised trial in primary care. Age and Ageing, 2026.
  • Omuya H et al. A systematic review of randomised-controlled trials on deprescribing outcomes in older adults with polypharmacy. International Journal of Pharmacy Practice, 2023.
Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.