Um estudo publicado em 2026 encontrou uma associação entre o uso de tadalafila para sintomas urinários e maior ocorrência de glaucoma e hipertensão ocular ao longo de cinco anos. Isso merece atenção, mas não significa que a tadalafila tenha sido comprovada como causa de glaucoma — e muito menos que quem usa o medicamento deva suspendê-lo por conta própria.
A principal mensagem é de equilíbrio: o sinal científico é novo e relevante, sobretudo para homens que usam tadalafila de forma contínua por sintomas do trato urinário inferior relacionados à próstata. Ao mesmo tempo, o estudo foi observacional e não consegue excluir completamente diferenças entre quem recebeu ou não o medicamento.
O que o estudo encontrou?
A pesquisa avaliou dados de dezenas de milhares de homens em uma coorte multinacional. Foram comparados usuários de tadalafila prescrita para sintomas urinários com pessoas semelhantes que não usavam o medicamento.
Em cinco anos, a incidência acumulada de glaucoma foi de aproximadamente 3,93% no grupo da tadalafila e 3,16% no grupo de comparação. Na análise ajustada, o risco relativo de receber diagnóstico de glaucoma foi cerca de 22% maior entre os usuários de tadalafila. Também houve associação com hipertensão ocular e glaucoma primário de ângulo aberto.
Esses números precisam ser lidos juntos. Falar apenas em “22% de aumento de risco” pode soar muito mais dramático do que o dado absoluto. A diferença observada foi de menos de um ponto percentual na incidência acumulada em cinco anos.
Além disso, associação estatística não prova causalidade. Um estudo retrospectivo pode ajustar muitas características, mas não consegue garantir que todos os fatores relevantes tenham sido igualmente distribuídos entre os grupos.
Então a tadalafila causa glaucoma?
Ainda não é possível afirmar isso. O estudo encontrou uma associação que merece ser investigada em pesquisas futuras. Para estabelecer causalidade com maior segurança, seriam necessários outros desenhos de estudo e reprodução consistente do achado.
Também não é correto concluir que qualquer pessoa que já tomou tadalafila tenha o mesmo risco observado nessa coorte. O trabalho avaliou principalmente homens usando o medicamento para sintomas do trato urinário inferior, contexto no qual a tadalafila pode ser utilizada de forma contínua.
Isso é diferente, por exemplo, de alguém que usa o medicamento ocasionalmente por disfunção erétil. O estudo não foi desenhado para responder diretamente qual seria o risco nesse padrão de uso.
O resultado vale para sildenafil ou outros medicamentos parecidos?
Não automaticamente. Tadalafila pertence ao grupo dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5, assim como sildenafil e outros medicamentos. Porém, os resultados de um estudo específico com tadalafila não devem ser transportados como se fossem prova para toda a classe.
Cada medicamento tem características farmacológicas e padrões de uso diferentes. A pergunta sobre efeito de classe continua aberta e deve ser respondida por estudos específicos.
Por que glaucoma merece atenção em pessoas mais velhas?
Glaucoma é uma doença que pode causar dano progressivo ao nervo óptico e perda do campo visual. Um dos desafios é que o glaucoma primário de ângulo aberto costuma evoluir silenciosamente nas fases iniciais.
Isso significa que esperar “sentir algo no olho” não é uma estratégia segura de detecção. Pressão intraocular elevada é um fator importante, mas não é o único critério: algumas pessoas desenvolvem glaucoma com pressões consideradas dentro de faixas habituais, enquanto outras têm pressão elevada sem dano glaucomatoso naquele momento.
A avaliação oftalmológica considera o conjunto — pressão ocular, aspecto do nervo óptico, campo visual e outros exames conforme a necessidade.
Quem usa tadalafila precisa fazer exame de vista?
O novo estudo não criou uma diretriz formal de rastreamento para todas as pessoas que usam tadalafila. Os próprios autores sugerem que o achado justifica maior atenção, especialmente em quem já apresenta fatores de risco ocular ou uso prolongado.
Na prática, faz sentido que uma pessoa que usa tadalafila continuamente informe esse medicamento ao oftalmologista e que o médico que prescreve saiba se existe histórico de glaucoma ou hipertensão ocular.
Pessoas que já têm glaucoma, pressão intraocular elevada ou forte histórico familiar devem discutir o achado com os profissionais que acompanham o caso. Isso não significa que o medicamento seja necessariamente contraindicado; significa que a decisão precisa considerar benefício, risco individual e possibilidade de acompanhamento.
Devo parar a tadalafila por causa desse estudo?
Não interrompa por conta própria. O estudo não recomenda suspensão generalizada, e parar um tratamento sem discutir com o médico pode trazer outros problemas.
Tadalafila pode ser usada por diferentes motivos, entre eles disfunção erétil e sintomas urinários associados à hiperplasia prostática benigna. Para quem apresenta melhora relevante de sintomas, a decisão de continuar, modificar ou interromper o tratamento deve levar em conta o motivo da prescrição, alternativas disponíveis, histórico ocular e preferências do paciente.
A conduta mais prudente diante desse novo dado é conversar com quem prescreveu e manter acompanhamento oftalmológico adequado à idade e aos fatores de risco.
E se a pessoa já usa colírio para glaucoma?
Quem já tem diagnóstico de glaucoma não deve mudar colírios nem tadalafila sozinho. Vale levar uma lista completa de medicamentos para a consulta oftalmológica e informar ao médico que acompanha os sintomas urinários ou a saúde sexual sobre o diagnóstico ocular.
O tratamento do glaucoma depende do tipo da doença, do dano já existente e da pressão-alvo definida pelo oftalmologista. Um novo estudo populacional não substitui essas informações individuais.
Quais sintomas o glaucoma costuma causar?
O glaucoma mais comum, de ângulo aberto, frequentemente não produz sintomas nas fases iniciais. Quando a perda visual se torna percebida, pode já haver dano relevante.
Isso é diferente do glaucoma agudo de fechamento angular, que pode causar dor ocular intensa, olho vermelho, visão borrada ou halos, dor de cabeça, náuseas e vômitos. Esse quadro exige atendimento urgente. O estudo sobre tadalafila, porém, não demonstrou uma associação significativa específica com fechamento angular agudo; portanto, não é correto usar esses sintomas como se fossem o “efeito típico” da tadalafila.
Independentemente do medicamento, perda visual súbita, dor ocular intensa ou alteração visual importante merece avaliação urgente.
O que homens mais velhos podem fazer agora?
Se você usa tadalafila, especialmente de modo contínuo, algumas atitudes simples ajudam a transformar o novo conhecimento em cuidado sem alarmismo:
- não suspenda nem altere o medicamento sem conversar com o médico;
- confirme qual é a indicação do tratamento e há quanto tempo ele é usado;
- informe ao oftalmologista todos os medicamentos de uso contínuo;
- conte ao médico se já existe glaucoma, pressão ocular elevada ou história familiar importante;
- mantenha avaliações oftalmológicas recomendadas para sua idade e risco individual;
- procure atendimento se surgir perda visual súbita ou dor ocular intensa.
Não é necessário viver em alerta permanente. O risco absoluto observado no estudo permaneceu relativamente baixo, e o dado ainda precisa de confirmação em outras populações e desenhos de pesquisa.
Por que esse tipo de notícia pode confundir?
Estudos sobre medicamentos frequentemente são divulgados pelo risco relativo, porque ele chama mais atenção. Mas o risco absoluto ajuda a colocar o achado em perspectiva.
Imagine uma situação hipotética em que um evento passe de 3 para 4 pessoas a cada 100. Isso representa um aumento relativo de cerca de um terço, mas uma diferença absoluta de apenas uma pessoa a cada 100. Os dois números são verdadeiros, mas contam partes diferentes da história.
No estudo da tadalafila, olhar incidência acumulada e razão de risco em conjunto evita transformar um sinal de segurança em certeza de dano.
Perguntas frequentes
Cialis e tadalafila são a mesma coisa?
Cialis é um nome comercial de tadalafila. Existem também versões genéricas. O princípio ativo é o mesmo, embora apresentações e indicações possam variar.
Quem usa tadalafila ocasionalmente para disfunção erétil corre o mesmo risco?
Não sabemos. A coorte estudada avaliou uso de tadalafila para sintomas urinários, geralmente associado a exposição continuada. Não é adequado extrapolar diretamente o resultado para uso ocasional.
O estudo significa que todo homem em uso contínuo precisa de um exame especial?
Não existe uma recomendação universal nova baseada apenas nesse estudo. Pessoas com fatores de risco para glaucoma ou uso prolongado podem discutir a frequência de acompanhamento com o oftalmologista.
Posso trocar tadalafila por sildenafil para evitar esse risco?
Não faça essa troca por conta própria. O estudo não demonstrou que sildenafil seja uma alternativa ocularmente “mais segura”, e medicamentos diferentes não devem ser escolhidos apenas por uma extrapolação indireta.
Qual é a principal atitude agora?
Manter o tratamento conforme prescrito até conversar com o médico, informar o uso da tadalafila ao oftalmologista e interpretar o novo estudo como um sinal de segurança a acompanhar, não como prova de que o medicamento causa glaucoma.
