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16 de agosto de 2026

Tontura ao levantar em idosos: quando pode ser queda de pressão?

Tontura ao se levantar não deve ser tratada automaticamente como “coisa da idade”. Entenda quando pode haver hipotensão ortostática, o que observar e quando procurar atendimento.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

Sentir tontura ao se levantar é uma queixa relativamente comum na velhice, mas não deve ser considerada normal apenas por causa da idade. Em algumas pessoas, o sintoma acontece porque a pressão arterial cai quando o corpo passa da posição deitada ou sentada para a posição em pé. Essa situação é chamada de hipotensão ortostática.

Ela pode causar sensação de cabeça leve, visão escurecendo, fraqueza, desequilíbrio e até desmaio. Em uma pessoa idosa, merece atenção especial porque pode contribuir para quedas e porque às vezes é o primeiro sinal de desidratação, efeito de medicamentos ou outro problema de saúde.

O que é hipotensão ortostática?

Quando nos levantamos, parte do sangue se desloca temporariamente para as pernas e para o abdome. O organismo normalmente responde rapidamente, ajustando os vasos sanguíneos e a frequência cardíaca para manter o fluxo de sangue para o cérebro.

Com o envelhecimento, doenças crônicas e alguns medicamentos, essa compensação pode ficar menos eficiente. A American Heart Association define a hipotensão ortostática clássica como uma queda sustentada de pelo menos 20 mmHg na pressão sistólica ou 10 mmHg na diastólica dentro de três minutos após ficar em pé.

A medida da pressão ajuda, mas o diagnóstico não deve ser feito apenas por uma aferição isolada. É preciso relacionar os valores aos sintomas, aos horários em que ocorrem e ao contexto clínico.

Quais situações podem provocar tontura ao levantar?

Há várias possibilidades, e mais de uma pode estar presente ao mesmo tempo:

  • pouca ingestão de líquidos ou perda de líquidos por febre, diarreia ou vômitos;
  • uso de medicamentos que reduzem a pressão ou aumentam a eliminação de líquidos;
  • medicamentos sedativos ou outros fármacos que favoreçam tontura e desequilíbrio;
  • anemia;
  • diabetes com alteração do sistema nervoso autônomo;
  • doenças neurológicas;
  • repouso prolongado e perda de condicionamento físico;
  • fragilidade e sarcopenia;
  • alterações cardiovasculares.

Por isso, simplesmente “aumentar a pressão” não é uma solução adequada. Em pessoas com hipertensão, insuficiência cardíaca ou doença renal, por exemplo, aumentar sal ou líquidos sem orientação pode ser inadequado.

O que a família pode observar?

Algumas perguntas ajudam muito na consulta médica:

  • A tontura aparece logo depois que a pessoa se levanta?
  • Acontece mais pela manhã, após refeições ou após o banho?
  • Houve mudança recente de algum medicamento?
  • A pessoa está bebendo menos líquidos?
  • Já ocorreu desmaio ou queda?
  • Há palpitações, dor no peito ou falta de ar?
  • Existe fraqueza em um lado do corpo, alteração da fala ou confusão súbita?

Anotar quando os episódios acontecem e quais medicamentos foram usados naquele dia pode facilitar a investigação.

O que fazer no momento da tontura?

Se a pessoa ficar tonta ao se levantar, a prioridade é evitar a queda. Ela deve se apoiar e, se possível, sentar-se ou deitar-se novamente até o sintoma passar.

Depois, pode se levantar de forma gradual: primeiro sentar na cama, permanecer alguns instantes nessa posição e então ficar em pé com apoio. Movimentos bruscos devem ser evitados.

Também é importante manter caminhos livres de obstáculos, boa iluminação e apoio seguro no banheiro e no quarto. Essas medidas não tratam a causa, mas diminuem o risco de uma tontura terminar em fratura ou traumatismo.

Não suspenda nem reduza medicamentos por conta própria. Muitas vezes o ajuste da prescrição é útil, mas ele precisa levar em conta a doença que motivou o tratamento e os riscos de interrompê-lo.

O remédio para pressão é sempre o culpado?

Não. A relação é mais complexa. A hipotensão ortostática é frequente em pessoas que também têm hipertensão, mas isso não significa que controlar a pressão seja prejudicial.

A avaliação médica procura identificar padrões, revisar todos os medicamentos — inclusive remédios para dormir, antidepressivos, medicamentos para próstata e outros — e decidir se existe algum fator que pode ser modificado com segurança.

Quando procurar atendimento com mais urgência?

Tontura deve ser avaliada rapidamente quando vier acompanhada de:

  • desmaio;
  • queda com trauma, especialmente pancada na cabeça;
  • dor no peito;
  • falta de ar importante;
  • palpitações persistentes;
  • dificuldade para falar;
  • fraqueza ou perda de sensibilidade de um lado do corpo;
  • confusão que começou de repente;
  • dificuldade importante para permanecer acordado.

Esses sinais podem ter outras causas além da pressão baixa e não devem ser atribuídos automaticamente ao envelhecimento.

Quando procurar um geriatra?

A avaliação geriátrica é especialmente útil quando a tontura é recorrente, quando já houve quedas, quando a pessoa usa vários medicamentos ou quando convivem problemas como hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal, Parkinson, fragilidade ou perda de força.

O geriatra pode integrar pressão arterial, medicamentos, hidratação, alimentação, equilíbrio, marcha, visão, audição, força muscular e doenças crônicas. O objetivo não é apenas descobrir “qual número da pressão está baixo”, mas entender por que aquela pessoa está ficando tonta e como reduzir o risco de novas quedas.

Perguntas frequentes

Pressão baixa em idoso é sempre perigosa?

Não. Algumas pessoas têm valores mais baixos sem sintomas. O que aumenta a preocupação é uma queda associada a tontura, desmaio, quedas ou sinais de redução do fluxo sanguíneo para órgãos importantes.

Posso dar mais sal quando a pressão cai?

Não é recomendável fazer isso automaticamente. Pessoas com hipertensão, insuficiência cardíaca, doença renal ou tendência a inchaço podem ter prejuízo com excesso de sal. A orientação deve ser individualizada.

Levantar devagar ajuda?

Pode ajudar a reduzir sintomas em algumas pessoas e, principalmente, diminui o risco de perder o equilíbrio durante a transição para a posição em pé. Se a tontura for recorrente, isso não substitui a investigação da causa.

Tontura frequente pode aumentar o risco de queda?

Sim. Estudos em pessoas idosas mostram associação entre hipotensão ortostática e maior ocorrência de quedas, o que reforça a importância de investigar a queixa.

Em resumo

Tontura ao levantar em uma pessoa idosa merece atenção, especialmente quando se repete. Hipotensão ortostática é uma possibilidade, mas desidratação, medicamentos, doenças cardiovasculares, alterações neurológicas e outros problemas também podem causar sintomas semelhantes.

Observar o contexto, prevenir quedas e revisar a saúde como um todo costuma ser mais seguro do que tentar corrigir a pressão por conta própria.

Fontes científicas principais

  • American Heart Association. Orthostatic Hypotension in Adults With Hypertension: A Scientific Statement. Hypertension, 2024.
  • Sattler L et al. Prevalence and screening of orthostatic hypotension in older adults presenting to the emergency department: a systematic review. International Emergency Nursing, 2026.
  • Mol A et al. Orthostatic Hypotension and Falls in Older Adults: A Systematic Review and Meta-analysis. Journal of the American Medical Directors Association, 2019.
Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.