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15 de agosto de 2026

Uso de telas e sono do idoso: o que fazer à noite

Celular, TV e tablet à noite podem atrasar e fragmentar o sono do idoso. Veja mudanças simples para descansar melhor e com segurança.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

O uso de telas e sono estão diretamente relacionados: celular, tablet, computador e televisão perto do horário de dormir podem atrasar o sono, aumentar os despertares e reduzir a sensação de descanso. Na prática, o mais importante é diminuir o uso desses aparelhos no período da noite, evitar conteúdos estimulantes e observar como cada pessoa reage. Não é preciso proibir toda tela, mas criar limites realistas e manter uma rotina adequada.

Por que as telas podem atrapalhar o sono?

As telas emitem luz, inclusive na faixa azul, que pode interferir na produção de melatonina, hormônio envolvido na preparação do organismo para dormir. Quando o cérebro recebe muita luminosidade à noite, pode interpretar que ainda é hora de permanecer acordado.

Porém, a luz não é o único problema. O conteúdo também importa. Notícias preocupantes, vídeos muito rápidos, discussões em redes sociais e mensagens de trabalho ou da família podem provocar ansiedade, curiosidade ou estado de alerta.

Além disso, é fácil perder a noção do tempo diante de uma tela. A pessoa pretende assistir a um vídeo por poucos minutos, mas permanece acordada por muito mais tempo. Com isso, o horário de dormir fica cada vez mais tarde.

O que muda no sono com o envelhecimento?

O envelhecimento costuma trazer mudanças naturais no padrão de sono. Muitos idosos passam a dormir e acordar mais cedo, têm um sono menos profundo e despertam com maior facilidade durante a madrugada.

Isso não significa que dormir mal seja sempre “normal da idade”. Dor, falta de ar, vontade frequente de urinar, ansiedade, depressão, apneia do sono, síndrome das pernas inquietas e alguns medicamentos podem prejudicar o descanso.

Como o sono tende a ficar mais sensível, hábitos noturnos que antes pareciam inofensivos podem passar a ter maior impacto. Uma televisão ligada no quarto, notificações frequentes ou o brilho do celular podem facilitar novos despertares e dificultar voltar a dormir.

É necessário abandonar totalmente as telas à noite?

Para a maioria das pessoas, não. Uma proibição rígida pode ser difícil de manter, especialmente quando a televisão é uma forma de lazer ou quando o celular ajuda o idoso a conversar com familiares.

O objetivo é reduzir a exposição no período mais próximo do sono. Como orientação geral, vale experimentar ficar sem telas por cerca de uma hora antes de deitar. Algumas pessoas percebem benefício com um intervalo menor; outras precisam de mais tempo.

Essa adaptação deve considerar a rotina, o grau de autonomia e as necessidades de cada idoso. Pessoas que moram sozinhas, por exemplo, podem depender do telefone para se sentirem seguras. Nesse caso, o aparelho pode permanecer acessível, mas com notificações desnecessárias silenciadas.

Mudanças práticas para dormir melhor

Algumas medidas simples podem diminuir a interferência das telas no descanso:

  • Defina um horário para encerrar vídeos, redes sociais e notícias.
  • Diminua o brilho dos aparelhos no começo da noite.
  • Ative o modo noturno, que reduz parte da luz azul, quando disponível.
  • Evite conteúdos tensos, discussões e notícias preocupantes antes de dormir.
  • Desative notificações que não sejam importantes durante a madrugada.
  • Mantenha celular e tablet fora do alcance da cama, quando isso for seguro.
  • Evite adormecer com a televisão ligada.
  • Substitua parte do tempo de tela por leitura leve, música tranquila ou conversa.
  • Mantenha horários relativamente regulares para dormir e acordar.

O modo noturno pode ajudar a reduzir a luminosidade, mas não elimina o efeito estimulante do conteúdo nem resolve o hábito de permanecer conectado até tarde. Portanto, ele é um recurso complementar, e não uma solução isolada.

Televisão no quarto também conta como tela?

Sim. Embora a televisão geralmente fique mais distante dos olhos, ela pode manter o cérebro estimulado e produzir luz e som durante a noite. Mudanças de volume, propagandas e cenas mais claras podem causar pequenos despertares, mesmo que a pessoa não se lembre deles pela manhã.

Também existe o risco de a pessoa associar a cama à necessidade de assistir televisão para conseguir dormir. Aos poucos, isso pode dificultar o adormecimento quando o aparelho não está disponível.

Se retirar a TV do quarto não for possível, uma alternativa é programar o desligamento automático e reduzir gradualmente o tempo de uso. O volume deve permitir ouvir sem esforço, mas não precisa permanecer ligado depois que a pessoa adormece.

E quando o idoso acorda durante a madrugada?

Pegar o celular para conferir a hora ou passar o tempo pode aumentar o estado de alerta. Além da luminosidade, mensagens e notícias despertam emoções que dificultam o retorno ao sono.

Quando possível, é melhor evitar olhar repetidamente para o relógio e não abrir redes sociais. Uma iluminação indireta e fraca pode ser usada caso seja necessário levantar, sempre cuidando para que o caminho até o banheiro esteja seguro e sem obstáculos.

Se o idoso permanece acordado por muito tempo, levanta várias vezes ou apresenta risco de queda, a situação merece avaliação profissional. A prioridade nunca deve ser manter o ambiente escuro a ponto de comprometer a segurança.

Outros hábitos que influenciam o descanso

Reduzir as telas ajuda, mas o sono depende do conjunto da rotina. Exposição à luz natural pela manhã, atividade física compatível com a condição de saúde e horários regulares podem favorecer o ritmo do organismo.

Cochilos longos ou no fim da tarde podem reduzir o sono noturno. Café, chá-preto, chá-verde, refrigerantes à base de cola e outras bebidas estimulantes também podem atrapalhar algumas pessoas, sobretudo quando consumidos mais tarde.

Medicamentos não devem ser iniciados, suspensos ou alterados por conta própria. Até produtos vendidos como “naturais” podem causar efeitos adversos, interações, sonolência durante o dia e maior risco de quedas. A orientação deve ser individualizada pelo médico.

Quando procurar avaliação médica?

Vale buscar atendimento quando a dificuldade para dormir é frequente, dura várias semanas ou prejudica o humor, a memória e a disposição durante o dia. Ronco alto, pausas na respiração, engasgos noturnos, movimentos intensos, quedas e sonolência excessiva também precisam ser investigados.

Alterações recentes de comportamento, confusão à noite ou inversão do horário de sono podem ter diferentes causas, especialmente em pessoas com demência ou outras doenças. Uma avaliação médica individual ajuda a identificar fatores associados e definir cuidados adequados para cada caso.

Perguntas frequentes

Quanto tempo antes de dormir o idoso deve desligar as telas?

Uma boa experiência inicial é interromper o uso cerca de uma hora antes de deitar. O intervalo pode ser ajustado conforme a rotina e a resposta de cada pessoa.

O filtro de luz azul resolve o problema?

Ele pode reduzir parte da luminosidade, mas não elimina a estimulação provocada por vídeos, mensagens e notícias. Diminuir o tempo de uso continua sendo importante.

Assistir à televisão é menos prejudicial que usar o celular?

A TV costuma ficar mais distante, porém também emite luz e oferece estímulos. Se permanecer ligada durante o sono, o som e as mudanças de imagem podem favorecer despertares.

Usar o celular durante a madrugada piora o sono?

Pode piorar. A luz e o conteúdo aumentam o estado de alerta e dificultam voltar a dormir. Se o aparelho for necessário para emergências, mantenha apenas notificações essenciais.

Todo problema de sono no idoso é causado por telas?

Não. Dor, doenças, alterações emocionais, apneia do sono e medicamentos também podem interferir. Sintomas persistentes devem ser avaliados individualmente por um médico.

Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.