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24 de outubro de 2026

Hidrocefalia de pressão normal no idoso: quando dificuldade para andar, urina e memória podem ter outra causa

Dificuldade para caminhar, urgência ou perda urinária e mudanças na memória podem aparecer juntas em diferentes doenças. Entenda por que a hidrocefalia de pressão normal merece avaliação médica.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

A hidrocefalia de pressão normal pode causar dificuldade para andar, alterações urinárias e problemas de memória, formando um conjunto de sinais que às vezes se parece com a doença de Alzheimer. Mas esses sintomas também podem ter muitas outras causas. Por isso, não é seguro tentar concluir o diagnóstico apenas pela observação ou por uma imagem do cérebro.

Quando esses sinais surgem juntos, pioram com o tempo ou começam a atrapalhar a autonomia, é importante marcar uma avaliação médica, de preferência com um geriatra, neurologista ou equipe especializada.

O que é hidrocefalia de pressão normal?

A hidrocefalia de pressão normal, também chamada de HPN, acontece quando há aumento da quantidade de líquido dentro dos espaços do cérebro. Esse líquido é chamado de líquor. O nome pode confundir: em muitos casos, a pressão medida não está claramente elevada, mesmo que o acúmulo de líquido altere o funcionamento cerebral.

A HPN é uma possível causa de alterações neurológicas em pessoas mais velhas. Ela pode ser confundida com demências, problemas do equilíbrio, doenças urinárias ou efeitos de medicamentos.

Isso não significa que toda pessoa com dificuldade para andar, perda de urina ou esquecimento tenha hidrocefalia. O diagnóstico exige avaliação clínica, exame neurológico e exames de imagem, além de considerar outras causas.

Os três sinais mais conhecidos

Os sintomas clássicos da hidrocefalia de pressão normal envolvem três áreas:

  • Marcha: a pessoa fica mais lenta e insegura para caminhar.
  • Urina: pode surgir urgência, aumento da frequência ou perda urinária.
  • Pensamento: aparecem lentidão, dificuldade de atenção, organização ou memória.

Esses sinais não precisam surgir ao mesmo tempo. Um deles pode aparecer primeiro, e os outros podem se tornar mais evidentes meses ou anos depois. A intensidade também varia de uma pessoa para outra.

Como a marcha pode mudar?

A mudança para caminhar costuma chamar a atenção da família. A pessoa pode:

  • dar passos mais curtos;
  • caminhar mais devagar;
  • parecer que os pés estão “grudados” no chão;
  • ter dificuldade para começar a andar;
  • apresentar mais insegurança ao virar ou mudar de direção;
  • sofrer quedas ou quase quedas.

Nem toda alteração da marcha é causada por HPN. Artrose, fraqueza muscular, alterações da visão, problemas no ouvido interno, doença de Parkinson, neuropatias e efeitos de remédios também podem ter papel importante. Por isso, observar como a marcha mudou ajuda o médico, mas não confirma a causa.

HPN e Alzheimer: quais são as diferenças gerais?

A hidrocefalia de pressão normal e a doença de Alzheimer podem causar lentidão e dificuldades cognitivas, mas não são a mesma condição.

Na HPN, a alteração para andar frequentemente é um dos primeiros sinais ou aparece de forma bastante evidente. A pessoa pode ter mais dificuldade para iniciar os movimentos e para manter o equilíbrio. Os sintomas urinários também podem fazer parte do quadro.

No Alzheimer, os problemas de memória recente costumam ser mais marcantes no início, embora a apresentação varie. Com o tempo, outras funções também podem ser afetadas.

Essas são apenas diferenças gerais. Uma pessoa pode ter mais de uma condição ao mesmo tempo, e outras doenças podem imitar qualquer um desses padrões. O objetivo da avaliação não é escolher uma explicação rapidamente, mas entender o conjunto de sintomas e procurar causas tratáveis ou controláveis.

Como é feita a investigação?

A consulta começa com uma conversa detalhada. O médico pode perguntar quando os sintomas começaram, qual apareceu primeiro, se houve quedas, como a urina mudou e quais atividades ficaram mais difíceis.

Também costuma fazer:

  • exame neurológico;
  • observação da caminhada e do equilíbrio;
  • avaliação de força e coordenação;
  • testes breves de memória, atenção e organização;
  • revisão das doenças e dos medicamentos em uso;
  • investigação de outras causas de confusão, quedas, incontinência ou lentidão.

A ressonância magnética ou a tomografia computadorizada podem mostrar aumento dos espaços por onde circula o líquor e outras características que ajudam na investigação. Porém, uma imagem alterada, sozinha, não confirma hidrocefalia de pressão normal. Alterações semelhantes podem aparecer com o envelhecimento ou com outras doenças cerebrais.

Em alguns casos, a equipe especializada considera testes com retirada de líquor, conhecidos como “tap test”, ou outros exames para avaliar a possibilidade de benefício com tratamento. A indicação depende do quadro completo e deve ser individualizada.

Hidrocefalia de pressão normal tem tratamento?

Pode haver tratamento, mas a decisão não é automática. Em pessoas consideradas adequadas após avaliação, especialistas podem discutir procedimentos para desviar o excesso de líquor, chamados de derivações.

Esses procedimentos podem trazer riscos e não garantem a melhora de todos os sintomas. A possibilidade de benefício depende de vários fatores, como a causa dos sintomas, o tempo de evolução, as condições de saúde e os resultados da investigação. Por isso, a decisão deve ser feita com uma equipe experiente, depois de conversar sobre benefícios, riscos e alternativas.

Enquanto a investigação acontece, a família pode ajudar a reduzir riscos de queda, melhorar a iluminação da casa e acompanhar mudanças na autonomia. Veja também orientações sobre como prevenir quedas em idosos dentro de casa.

Quando procurar um geriatra?

Marque uma consulta quando houver:

  • piora progressiva da caminhada;
  • quedas repetidas ou medo de andar;
  • urgência ou perda urinária que começou recentemente;
  • mudança de memória, atenção ou comportamento;
  • combinação de dificuldade para andar, sintomas urinários e alterações cognitivas;
  • perda de autonomia em tarefas que antes eram simples.

Procure atendimento com prioridade se houver confusão súbita, piora rápida, queda importante, fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, desmaio, convulsão ou dor de cabeça intensa e nova. Esses sinais podem indicar outras situações urgentes e não devem ser atribuídos automaticamente à hidrocefalia.

O que levar para a consulta?

A família pode anotar:

  1. quando cada sintoma começou;
  2. se houve piora gradual ou mudança repentina;
  3. quedas, tropeços e dificuldade para levantar;
  4. frequência, urgência e perdas de urina;
  5. mudanças na memória, atenção e rotina;
  6. doenças anteriores e todos os medicamentos, incluindo os usados apenas de vez em quando;
  7. exames de imagem e relatórios já realizados.

Se possível, um familiar ou cuidador deve acompanhar a consulta. Muitas vezes, a própria pessoa não percebe todas as mudanças que ocorreram no dia a dia.

Perguntas frequentes

A hidrocefalia de pressão normal é uma forma de Alzheimer?

Não. São condições diferentes, embora possam produzir sintomas parecidos. Também é possível que uma pessoa tenha mais de uma doença.

Perder urina sempre indica hidrocefalia?

Não. Infecção urinária, alterações da próstata, diabetes, prisão de ventre, limitações de mobilidade e medicamentos são algumas das muitas possibilidades.

Uma ressonância com “ventrículos aumentados” confirma o diagnóstico?

Não. A imagem precisa ser interpretada junto com os sintomas, o exame físico, os testes cognitivos e a investigação de outras causas.

Devo esperar os três sintomas aparecerem?

Não. A avaliação pode ser necessária mesmo quando existe apenas um sintoma progressivo, principalmente dificuldade para caminhar, quedas ou mudança cognitiva recente.

A principal mensagem é: alterações na marcha, na urina e no pensamento merecem atenção, mas não permitem autodiagnóstico. Uma avaliação geriátrica ou neurológica cuidadosa pode ajudar a diferenciar envelhecimento, doenças comuns, efeitos de remédios e condições potencialmente tratáveis, como a hidrocefalia de pressão normal.

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Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.