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12 de outubro de 2026

Idoso caiu mais de uma vez: como investigar as causas e reduzir novos riscos

Quedas repetidas em idosos merecem avaliação, mesmo quando não deixam ferimentos. Saiba o que fazer após uma queda, quais sinais exigem atendimento rápido e como uma avaliação geriátrica pode ajudar.

RPPor Rodrigo Patriota · Médico Geriatra

Cair duas ou mais vezes não deve ser considerado apenas um problema da casa. Mesmo sem cortes, dor ou fratura aparente, quedas repetidas podem estar relacionadas a alterações na visão, equilíbrio, força, pressão arterial, marcha, doenças, tonturas ou medicamentos.

A família deve procurar avaliação profissional, de preferência com um geriatra ou outro médico que acompanhe o idoso. Enquanto isso, algumas medidas simples ajudam a reduzir o risco de uma nova queda sem tirar completamente a autonomia.

Por que duas ou mais quedas merecem investigação?

Uma queda isolada pode acontecer por um tropeço ou escorregão. Mas, quando o episódio se repete, é importante entender por que o idoso está caindo e em quais situações isso acontece.

A queda pode ocorrer ao levantar da cama, caminhar no banheiro, virar o corpo, subir um degrau ou depois de passar muito tempo sentado. Esses detalhes ajudam a identificar fatores que podem ser corrigidos.

A avaliação geriátrica ampla costuma considerar:

  • equilíbrio, marcha e força das pernas;
  • tontura e pressão arterial ao mudar de posição;
  • visão e audição;
  • memória, atenção e humor;
  • doenças existentes e estado geral de saúde;
  • medicamentos usados, inclusive os comprados sem receita;
  • calçados, bengalas, andadores e outros apoios;
  • iluminação, tapetes, degraus e riscos no ambiente;
  • alimentação, hidratação e capacidade de realizar atividades do dia a dia.

O objetivo não é culpar o idoso nem proibir suas atividades. É descobrir quais mudanças podem tornar os movimentos mais seguros.

O que fazer logo após uma queda sem ferimento aparente?

Primeiro, mantenha a calma e observe se o idoso está consciente e consegue responder normalmente. Não o levante rapidamente. Pergunte se sente dor, tontura, fraqueza ou se bateu a cabeça.

Se ele estiver bem, sem dor importante e conseguir se movimentar com segurança, ajude-o a mudar de posição devagar. Evite puxá-lo pelos braços. Se houver dificuldade para levantar, peça ajuda e não tente fazer força sozinho.

Depois da queda, anote:

  • data e horário;
  • onde aconteceu;
  • o que o idoso fazia no momento;
  • se estava escuro, molhado ou com algum obstáculo;
  • se houve tontura, escurecimento da visão, palpitação ou perda de consciência;
  • se bateu a cabeça;
  • quais calçados usava;
  • como estava se sentindo antes e depois.

Mesmo quando parece tudo bem, uma queda repetida deve ser comunicada ao profissional de saúde. Alguns sintomas podem aparecer mais tarde, principalmente em pessoas frágeis ou que usam medicamentos que aumentam o risco de sangramento.

Quando uma queda exige atendimento imediato?

Procure atendimento rápido se houver qualquer um destes sinais:

  • perda de consciência, confusão nova ou sonolência incomum;
  • dificuldade para falar, mexer um braço ou uma perna, ou andar;
  • dor forte, deformidade ou incapacidade de apoiar o peso;
  • vômitos repetidos, dor de cabeça intensa ou que piora;
  • sangramento que não para;
  • falta de ar, dor no peito ou palpitações importantes;
  • suspeita de fratura;
  • queda com batida na cabeça, especialmente se o idoso usa medicamentos que aumentam sangramentos;
  • impossibilidade de levantar ou permanecer no chão por muito tempo.

Na dúvida, é mais seguro buscar orientação de um serviço de urgência. Não ofereça remédios por conta própria para “mascarar” a dor antes de uma avaliação.

Quedas repetidas podem estar relacionadas a remédios?

Sim. Alguns medicamentos podem causar sonolência, tontura, queda da pressão, visão alterada ou redução do estado de alerta. O risco pode aumentar quando o idoso usa muitos remédios ou quando houve uma mudança recente no tratamento.

Isso não significa que o medicamento seja necessariamente inadequado. Às vezes, é preciso avaliar o horário, a combinação entre remédios, a necessidade de cada um e a resposta do organismo.

Nunca suspenda, reduza ou troque um remédio por conta própria. A retirada repentina de alguns medicamentos também pode causar problemas. Leve à consulta a lista completa, com remédios prescritos, vitaminas, chás, suplementos e produtos comprados sem receita. Veja também quais medicamentos podem aumentar o risco de queda no idoso.

Doenças, tontura, pressão e fraqueza também podem contribuir

Quedas podem estar ligadas a alterações que nem sempre são percebidas no dia a dia. Uma queda de pressão ao levantar, por exemplo, pode causar instabilidade ou sensação de desmaio. Problemas de visão dificultam perceber obstáculos. Fraqueza muscular torna mais difícil recuperar o equilíbrio.

Dor nos pés, alterações nas articulações, problemas neurológicos, infecções, desidratação e mudanças cognitivas também podem interferir na marcha. Por isso, não é suficiente olhar apenas para os tapetes ou móveis da casa.

O profissional pode observar o idoso caminhando, levantando-se da cadeira, virando o corpo e mantendo o equilíbrio. Também pode avaliar a necessidade de fisioterapia, terapia ocupacional, revisão dos óculos ou de um dispositivo de apoio.

Como reduzir os riscos enquanto a avaliação não acontece?

Algumas medidas provisórias podem ajudar:

  • melhorar a iluminação, principalmente no caminho até o banheiro;
  • retirar tapetes soltos e fios do caminho;
  • manter objetos usados com frequência ao alcance;
  • instalar barras de apoio quando necessário;
  • usar calçados firmes, fechados e bem ajustados;
  • evitar subir em bancos ou cadeiras;
  • levantar devagar da cama e da cadeira;
  • manter o telefone ou outro meio de pedir ajuda por perto;
  • acompanhar o idoso em situações nas quais ele costuma cair.

Evite transformar a casa em um lugar de proibições. Segurança deve caminhar junto com autonomia. Para outras ideias, veja como prevenir quedas em idosos dentro de casa.

Que informações levar à consulta?

Além da lista de medicamentos, leve um relato das quedas. Se possível, registre vídeos curtos da marcha em ambiente seguro, sem colocar o idoso em risco. Informe se as quedas acontecem sempre no mesmo horário, ao levantar, após tomar algum remédio ou durante o banho.

Também conte sobre mudanças recentes: mais lentidão, medo de andar, dificuldade para se levantar, esquecimento, perda de apetite, tonturas ou redução das atividades.

Quando procurar um geriatra?

Procure um geriatra quando o idoso caiu mais de uma vez, passou a andar com insegurança, tem várias doenças ou usa muitos medicamentos. O geriatra pode organizar a investigação e articular o cuidado com outros profissionais.

Dependendo do caso, podem participar fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, oftalmologista, enfermeiro, farmacêutico, nutricionista ou neurologista. O cuidado é definido conforme os fatores encontrados, e não apenas pelo número de quedas.

FAQ

Uma queda sem machucado pode ser ignorada?

Não. Se foi uma queda repetida, ela merece investigação, mesmo sem ferimento visível.

Devo comprar uma bengala ou andador imediatamente?

Não necessariamente. O apoio precisa ser escolhido e ajustado de forma adequada. Um dispositivo incorreto pode aumentar o risco de tropeço. Peça orientação profissional.

É melhor impedir o idoso de caminhar sozinho?

A restrição pode aumentar dependência e fraqueza. O ideal é identificar os momentos de maior risco e planejar supervisão, adaptações e apoio proporcionais à necessidade.

A família deve parar os remédios suspeitos?

Não. Leve todos os medicamentos para revisão profissional. Não faça mudanças sem orientação.

Quedas repetidas são um sinal para investigar, não uma consequência inevitável da idade. Quanto mais cedo a família descreve os episódios e busca uma avaliação ampla, maior a chance de encontrar riscos modificáveis e preservar a autonomia com segurança.

Perguntas dos leitores

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Rodrigo Patriota, médico geriatra em Recife

Quem escreveu

Rodrigo Patriota

Médico Geriatra · CRM-PE 18751 · RQE 11136

Formado pela Universidade Federal de Pernambuco há mais de 15 anos, com residência em Clínica Médica pelo Hospital Otávio de Freitas e em Geriatria pela Universidade de Pernambuco. Mestre em Educação pela Faculdade Pernambucana de Saúde, preceptor da Residência Médica em Cardiologia do PROCAPE, pesquisador clínico e perito judicial.

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — Pernambuco (2025–2027). Atende em Recife e Vitória de Santo Antão.